segunda-feira, 28 de agosto de 2023

A divertida indústria da morte

 * Publicado nesta data em coletiva.net

Um previdente amigo, mesmo com a saúde perfeita, já trata de sua última morada, no caso, a sepultura junto ao jazigo da família. O veterano fez contato com uma agente funerária, a fim de  se informar sobre condições para um enterro digno, mas sem muita pompa e sem deixar questões para os vivos resolverem. A moça era bem despachada, o que levou meu amigo questioná-la sobre como fora cooptada pelos serviços fúnebres que, convenhamos, não é emprego dos sonhos de ninguém.

- Eu era recepcionista de motel, aí me ofereceram um salário bem melhor e aqui estou.

Diante da resposta, o potencial cliente saiu-se com essa graça, um tanto questionável.

- Ah, claro, já estavas acostumada a atender gente deitada.

Soube depois que a moça já partiu para outros desafios profissionais ou “desencarnou” da funerária, em mais um gracejo do meu amigo, acrescentando que, pela especialização adquirida, ele acredita que virou massagista ou está dedicada a alguma outra atividade que exija a clientela em decúbito dorsal ou ventral. No popular, deitado.

Mas não era sobre isso que queria discorrer. Retomando o chamado fio da meada, usei a historinha para mostrar que já não se fazem mais pompas fúnebres como antigamente. Nada a ver com aquelas comilanças a que se assiste nos velórios  dos filmes americanos, mas aqui os pré-enterros eram verdadeiros eventos, varavam as noites na casa da família antes da disseminação das capelas mortuárias. O féretro era levado por um cortejo de veículos, carro fúnebre à frente, até o local do sepultamento. Havia comoção, gestos de solidariedade e orações na passagem da comitiva  funérea. As famílias mais abastadas pagavam por notas de falecimento nas rádios, lidas com voz grave e empostadas pelos locutores, além  de anúncios nos jornais. Autoridades e lideranças empresariais tinham direito à espaço nas capas.

Hoje as redes sociais se encarregam de divulgar os falecimentos e é de graça. Tudo ficou muito simples e rápido, como se os vivos quisessem despachar logo o ente querido, de preferência cremado, para não ter que visitar periodicamente o tumulo, nem pagar as taxas cemiteriais.

Entretanto, a indústria da morte está bem viva, cada vez mais próspera, indo além das necrópoles e das funerárias e conquistando espaço no mundo do entretenimento. Os streamings têm inúmeras ofertas de filmes e séries de funerais, a maioria do gênero comedia, o que traduz a tendência de tratar com leveza o sensível tema da morte.

Um lançamento recente é a série alemã A Penúltima Palavra, encontrável no Netflix. A proposta passa por contar histórias diferentes das hollywoodianas e, assim, atingir novos públicos. Falar de morte, do luto da perda e, é claro, da vida, é um caminho para isso, em uma comédia com toques de melancolia, drama e até romance, jamais de tragédia. A sinopse dá conta de que o mundo da personagem Karla Fazius se desfaz quando seu marido morre inesperadamente, após 25 anos de casamento. Para espanto da família ela reage e acaba encontrando uma nova energia em outra vocação: oradora de velórios. Foi quando descobri que na Alemanha até curso e diploma são necessários para desempenhar a função. Suponho até que haja um Sindicato de Oradores de Velório defendendo os interesses da categoria.

E mais não antecipo sobre a história até para  manter vivo, por assim dizer, o interesse nos  oito capítulos de A Penúltima Palavra. Só adianto que, em algumas encomendações, a oradora deriva para a supersinceridade, fazendo revelações sobre o defunto, que contrariam esse preceito do imortal Millôr Fernandes: “ A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcança limites insuspeitados e seu caráter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois da sua morte’.

Tudo indica que a série vai ser revivida em uma segunda ou mais temporadas.

 

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Minha jornada literária

*Publicado nesta data em coletiva.net

Na próxima quinta-feira, 17, concluo outra etapa da minha jornada literária de 2023, que relatei com mais detalhes em Livros à mancheia (https://coletiva.net/colunas/livros-a-mancheia-,430754.jhtml. em 02/07/2023. ). Agora é o lançamento do livro Entre um Gole e Outro – Conversas de Boteco, de uma confraria de 11 jornalistas que se reúne semanalmente, sempre as quintas-feiras, no Bar do Alexandre, também conhecido como Boteco do Alemão, ali na esquina da Gonçalves Dias com a Saldanha Marinho, no Menino Deus. O Alemão, no caso, era um cão caramelado que foi adotado pela clientela e até mereceu matéria na ZH quando partiu para o ceuzinho dos cães.

Pois agora o Alemão serviu de inspiração para o livro que está sendo lançado, com textos do time de jornalistas, a maioria aposentados, mas muito ativos na mesa do bar. São eles, em ordem alfabética para não dar ciumeiras: Alexandre Bach, Carlos Wagner, Elton Werb, Flávio Dutra, Horst Eduardo Knak, Marcelo Villas-Bôas, Márcio Pinheiro, Marco Poli, Mario de Santi, Luiz Reni Marques e Ricardo Kadão Chaves. O prefácio é da caldável Mariana Bertolucci, que também assina a edição pela Ba. Consta,  que a presença dela foi um artifício dos confrades para negar que o grupo seja misógino. Negamos peremptoriamente. Tem mais: tem  fotos do  Kadão  e do André Feltes, e também retratos menos artísticos dos celulares do pessoal. O belo projeto gráfico é do Antônio Luzzatto e a revisão  da competente Cássia Zanon.

Sou o decano do grupo, mas da última leva de integrantes, por isso não me sinto autorizado a nada antecipar (quase usei spoiler!) sobre os conteúdos da obra.  Prefiro repicar o texto reliseiro do Márcio Pinheiro, o nosso Marcito: “Entre Um Gole e Outro (...) livro que reúne textos de onze sujeitos unidos pelo amor ao jornalismo, surgiu como surgem os bons vinhos. Foi elaborado com calma por onze sommeliers da palavra e contou ainda com períodos de maturação, de paciência e de apuro de um paladar refinado. Vale ressaltar que não é apenas a experiência jornalística que une estes onze amigos. Há também a sabedoria nascida nas ruas, o humor (inclusive o mau), a capacidade de rir de si mesmo e, principalmente, o interesse em conservar um artigo cada vez mais raro nesses dias em que a agressividade campeia: a conversa alegre e descompromissada”.

Agora me perguntem: foi barbada produzir um livro reunindo esse qualificado grupo de jornalistas? Respondo: não! E explico porque no posfácio da obra. Para conferir isso e muito mais só comparecendo na quinta-feira no Bar do Alexandre a partir das 6 da tarde e até o último gole.

A próxima etapa da minha jornada literária vai ser participar do lançamento  do livro “Eles deixaram as respostas, nós fizemos as perguntas”,  que reúne entrevistas póstumas de consagrados autores gaúchos. A Cláudia Coutinho, o Nilson Souza e o Luiz Adolfo Lino de Souza, que estão mais diretamente ligados à edição, garantem que o resultado final será bonitaço. O que me coube foi “entrevistar” Josué Guimarães. Deu trabalho, exigiu pesquisa, respeito ao legado dele, mas acho que ficou legal. A obra marca a presença da Associação Riograndense de Imprensa na Feira do Livro de Porto Alegre.

Por fim, precisei saltar uma etapa da jornada, deixando para o ano que vem meu quinto livro solo, que já tem originais prontos e título escolhido: “Kamadutra, A Garota do Supermercado e outras histórias bobas”. Espero que reine grande expectativa até o lançamento.