segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

O futebol em forma de letras

 * Publicado nesta data em Coletiva.net

Lá nos idos de 1980 sugeri na editoria de Esportes da Zero Hora, onde labutava, uma matéria sobre livros com temática do esporte disponíveis na Feira do Livro daquele ano. O editor Emanuel Mattos aplicou a regra de então: quem sugere tem preferência e lá me fui de barraca em barraca à procura de obras que sustentassem a matéria. Foi um fracasso total. Só encontrei poucos livros que tratavam de treinamento esportivo, a maioria de viés acadêmico e nada sobre o fascinante mundo das competições, inclusive do futebol. 

Hoje é bem diferente e quando o futebol e a literatura se encontram  ocorrem algumas belas jogadas. Um passeio pelas bancas da Praça da Alfândega, na Feira do Livro recém encerrada, revelou uma atraente e diversificada lista de títulos, de biografias de  craques vitoriosos e técnicos renomados à histórias sobre grandes times e suas conquistas memoráveis, com relatos de muita peixão,  mas também de episódios que gostaríamos de esquecer sobre casos de corrupção no futebol.

Só não encontrei o clássico “Futebol ao sol e à sombra”, de 1995, do uruguaio Eduardo Galeano, que conta a história do futebol, mostrando um olhar curioso sobre o esporte, como se o autor tivesse vivido cada momento dele. A Feira ficou me devendo também um clássico brasileiro de Nelson Rodrigues, “A sombra das chuteiras imortais”, editado pela Companhia das Letras, com seleção de textos de Ruy Castro, que é autor de outro clássico, “Estrela Solitária”, sobre a trajetória do genial Garrincha.

Em nível de RS,  pelo menos três títulos sobre futebol e seus personagens ganharam destaque na Feira e certamente ficaram entre os mais vendidos:  “Ruy Carlos Ostermann – um encontro com o professor”, biografia do grande comentarista esportivo, contada por Carlos Guimarães; “O Inter, o jornalismo e nós”, do repórter Fabricio Falkowski,, edição da Capítulo 1 (alô, Claudia Coutinho),  descrito como “uma história do clube e as histórias vistas e vividas em 25 anos de cobertura do dia a dia do futebol”; e “Campeão da Vida – perdoar para viver”, de autoria de Luiz Fernando Aquino e Fernando da Rocha, sobre o drama vivido pelo jogador Regis, do Caxias, que precisou abandonar a profissão depois de ser violentamente agredido em campo. 

De lançamentos de anos anteriores vale destacar a série bibliográfica  sobre o Imortal Tricolor, do gremistão Léo Gerchmann, além de  “No último minuto - A História De Escurinho: Futebol, Violão e Fantasia”, de Jones Lopes da Silva,  e uma obra pouco badalada, mas de grande importância: “Escola Gaúcha de Futebol: uma árvore genealógica dos treinadores do Rio Grande do Sul”, de Felipe Duarte, repórter da Rádio Gaúcha, que faz a indagação: será que existe uma escola gaúcha de futebol? Recomendaria também um livro que me chegou as mãos pelo Ajax Barcelos e o  Osmar Zilio,  “Tamoio,  o time de Viamão”, uma detalhada e bem ilustrada história do clube amador  que completou 80 anos.  Os autores, Bira Mros e Juarez Godoy tem longa vivência no clube e contaram com a edição de Vitor Ortiz e prefácio do ex-atleta e hoje consagrado jornalista, Rogério Mendelski. 

De minha parte dei uma modesta, mas prazerosa contribuição para a estante esportiva gaúcha ao produzir dois livros: “G.E. Tupi – sonho de guris”, de 2023, em co-autoria com  meus amigos de sempre Piero D’ Alascio e Léo Ustarroz, sobre nosso time da infância e adolescência no bairro Petrópolis, e “Viva a Várzea – histórias e personagens do futebol raiz”, com textos de 16 outros parceiros, lançado em junho.  A propósito, em seguida sai a convocação dos craques que participarão do “Viva a Várzea – segundo tempo” – com previsão de lançamento para abril do ano que vem. Se me permitem o clichê,  reina grande expectativa.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Réquiem para meu Botafogo

 Depois de pontear boa parte do campeonato brasileiro, numa confortável distância sobre os mais próximos perseguidores, o Botafogo deixou escapar nas últimas rodadas um título que já estava na mão e que não era conquistado desde 1995. A frustração dos botafoguenses não tem limites porque a competente campanha, antes da derrocada final, permitia sonhar com a volta dos vitoriosos momentos do passado, que legaram ao clube a aura de Glorioso, como também é conhecido pelos seus aficionados, entre os quais me incluo. E é nessa condição que resgato um texto de 2015, bem diferente deste réquiem para o meu querido Botafogo:

Em algum lugar do passado ouvi do técnico Ernesto Guedes sobre a situação do Botafogo:  “É uma torcida e um saco de uniforme”.  O exagero do técnico,  que recém havia dirigido o time carioca,  me incomodou muito, eu que sou botafoguense desde pequenino.  A verdade é que o simpático Fogão desafia os astros, a lógica, a realidade e, entre altos e baixos,  sobrevive e se renova.  Só que vivia um dos tantos momentos de baixa quando o Ernesto por lá passou. 

Minha paixão pelo Botafogo nasceu no dia em que ganhei de Natal um jogo de futebol de botão do tipo panelinha, com aquela estrela solitária aplicada sobre os botões.  Para o menino de 10 anos só uma bola poderia ser um presente melhor.  Era também o tempo em que o Botafogo rivalizava com o Santos  como grande time brasileiro e uma das bases da seleção canarinho, campeã do mundo em 1958 e 62. O Santos tinha o talento coroado de Pelé e o Botafogo a magia de irresponsável de Garrincha e mais meu ídolo  Nilton Santos,  além de Didi, Quarentinha, Zagalo, Amarildo e, antes, o grande Heleno de Freitas, e tantos outros craques que ficaram na história.  Ainda é o clube que mais forneceu jogadores para seleção brasileira em copas do Mundo. 

Mais tarde descobri que o Glorioso era o time preferido da maioria dos gaúchos que migravam para o Rio. Não consegui descobrir a razão dessa  preferencia de gremistas e colorados expatriados, mas ela é real e, se precisar, cito quantos exemplos forem necessários. Nos meus tempos de repórter esportivo descobri também que havia uma ativa torcida organizada do Botafogo em Porto Alegre.  Desconheço se ainda existe, mas em se tratando do Fogão, não duvido. 

Mantenho uma paixão à distância, quase platônica, pela Estrela Solitária, tanto assim que não me lembro de ter assistido a qualquer jogo da equipe em estádio.  A razão dessa idealização talvez esteja na percepção que o Botafogo transmite, nem popularesco como o Flamengo e o Vasco, nem metido a elitista como o Fluminense, mas afetando uma nobreza que o distingue dos seus pares cariocas. Este é o meu Botafogo, que acompanho desde que me conheço por gente.   É uma trajetória  de altos e baixos,  como a venda do patrimônio do estádio de General Severiano e da sede do Mourisco que representaram também  a perda de parte da identidade botafoguense,  as boas fases com os títulos nacionais (1968 e 95) e o recorde de invencibilidade (52 jogos entre 1977 e 78), a queda para a segunda divisão (que sina a minha!) e agora o retorno glorioso, como o cognome do clube, com três rodadas de antecedência. 

Por tudo isso, jamais vou perdoar Ernesto Guedes pela avaliação cruel e intempestiva do passado, porque, afinal, como no hino de Lamartine Babo, a estrela solitária me conduz!

(Menos mal que a crise técnica do Botafogo permitiu ao Grêmio subir na tabela rumo a vaga direta para a Libertadores)

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

A plateia dos impertinentes

* Publicado nesta data em coletiva.net

Venho sendo torturado em eventos por discursos longos,  palestrantes chatos e plateias impertinentes. Dos discursos longos, livrai-me ; dos palestrantes, mesmo os chatos , tenho confessada inveja por não estar no lugar deles, desfilando minha sapiência  em defesa de uma tese qualquer; dos participantes impertinentes, prefiro distância porque não tenho mais paciência para certos procedimentos. Sou um autêntico idiota da objetividade, como diria Nelson Rodrigues, por isso minha tolerância à enrolação é baixíssima. Por enquanto, vou me deter sobre os tipos que pululam nas plateias das conferências e palestras  e me fazem revirar inquieto no assento e maldizer a presença ali.

Começo pelo Autobiográfico, aquele que, antes de fazer a pergunta, conta uma história sem nenhuma importância em que ele é protagonista e tem atuação decisiva. A história deveria fazer conexão com a pergunta, normalmente uma obviedade qualquer. Sua palavra preferida é “Eu”.

O Autobiográfico é muito parecido com o Exibido, que levanta uma tese, que só ele acha relevante, para sustentar uma pergunta tão rasa que pode ser respondida com Sim ou Não. Sua expressão preferida é “na minha opinião”. Com frequência, ele nem faz questionamentos, apenas se pavoneia para terminar com um “era isso, obrigado”, esperando aplausos que não vem.

Dias atrás, participando de importante evento, tive minha atenção desviada do conteúdo da palestra por um tipo estreante, pelo menos para mim: o Repetidor. A cada frase do palestrante, ele ecoava a parte final. Não satisfeito, pontuava todas as assertivas com um comentário, de aprovação ou contrariedade, como se estivesse a dialogar com o conferencista. Fiquei tão atucanado com o Repetidor que aí mesmo é que não prestei atenção nas recomendações da palestra sobre um tema da hora, que me interessava muito.

Esse tipo fagueiro se confunde, às vezes, com o Contestador que, munido de dados e argumentos que destoam da essência da exposição, faz uma pergunta que vai permitir a apresentação do seu showzinho de conhecimentos, com réplicas e tréplicas, constrangendo o palestrante. Fico com  vergonha alheia do sujeito, que tem explicação para o seu procedimento:  “Sou pelo contraditório”, no caso dele, sem limites.

O Breve #sqn  é aquele que promete “ser sintético” e emenda, no que seria a pergunta, um palavrório  de não menos de cinco minutos, que será sempre maior, muito maior, que a resposta. Lembro que em um congresso em que participava, o palestrante, um conceituado acadêmico, encerrou o assunto, respondendo “Você tem toda a razão”.  Detalhe é que o Breve #sqn se considerou elogiado e ficou todo faceiro por ter “toda a razão”.

Tem ainda o Cerimonioso que se dirige ao “ilustre palestrante, de notório saber”; o Intelectual, também conhecido como Opiniático, prenhe de teses e citações antes de fazer pergunta; o Burraldo, que não entendeu nada da exposição, mas, mesmo assim, arrisca uma participação que provoca olhares penalizados do resto da plateia;  e o Engraçadinho, que tenta arrancar risos da assistência com uma história jocosa, nem sempre consegue, mas não perde a pose.

A fauna dos inquisidores impertinentes é bem maior que os exemplares aqui citados, todos em busca de notoriedade, por curta que seja, indo ao encontro do grupo humano que mais cresce entre nós: os Sem Noção.

 

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

REFLEXÕES LIGEIRAS QUINTAFEIRINAS

1.Ontem na Arena um grande clássico brasileiro. Hoje em São Januário, um confronto da parte debaixo da tabela.

2.Consta que o pessoal do Mengo considerou o 3 x 2 uma trairagem do Renato...

3. Será que era o Luizito que estava atrapalhando?

4.Tá bem, o Renato pode continuar no Grêmio, mas não deixem ele indicar contratações.

5. O Brasil voltou a ter três poderes bem definidos: Lula, Alexandre de Moraes e Arthur Lira.

5.1.No Rio não tem disso: quem manda são as milicias!

6. E as mulheres perdem espaço no governo Lula.

6,1,Bruna Serrano, presidente da Caixa, demitida ontem, Daniela Carneiro (Turismo) e Ana Moser (Esporte) todas substituídas por homens.

6.2. Não, Janja não corre riscos.

7.Ouvido na mesa ao lado: "Tem gente que se esconde até de sirene do SAMU...”

8. Sempre que ouço falar em "ervas finas" sempre imagino ervas educadas em internatos na Suíça...

9.Um fenômeno: minhas calças encolheram na cintura...

10.,Merchan da parceria: hoje, a partir das 18h30, lançamento da coletânea Cronicas para ler com cAlma – volume 2.

10.1. No bar do Alexandre, também conhecido como do Alemão, na Gonçalves Dias.

11.Dizem que até o prefácio é bom.

12. Por uma Feira do Livro sem chuvas, roguemos com fervor.

 

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

A formatura na lata de lixo

* Publicação nesta data em coletiva.net

No recipiente para lixo na beira do Guaíba estava jogada a moldura que reproduzia a clássica foto dos formandos, com suas becas e chapéus para a cerimônia de diplomação. Era do curso de Ciências Jurídicas e Sociais (Direito) conforme inscrição sobre as fotos. A cena insólita chamou a atenção do caminhante solitário, acostumado a registrar as incidências incomuns daquele espaço. Normalmente eram registros sobre os pássaros, abundantes e de variadas espécies, que ali habitam em busca de alimentos e água.  Mas o repórter circulante jamais tinha visto algo parecido, como o descarte da lembrança de um momento que deveria ser de celebração pelos anos de entrega aos estudos.

O vilipendio da moldura desprezava a tradição quase milenar da formatura, que simboliza a passagem para a vida profissional. Por isso, os alunos vestem trajes especiais que os diferenciam dos demais participantes da cerimônia e o capello, o chapéu de forma quadrada em seu topo, que significa a sabedoria adquirida durante os anos de estudos.  Nas fotos, aparece ainda uma espécie de babador, o jabor, um acessório utilizado para distinguir os formandos, como um emblema de mérito e responsabilidade social, mas que talvez ficasse mais bem posicionado nos familiares, a babar pela conquista do estudante. Entretanto, toda essa simbologia foi jogada no lixo.

Por outro lado, a postagem da foto nas redes sociais mexeu com a imaginação dos ativistas de plantão e gerou uma série de comentários.  E, claro, politizaram o gesto e virou polêmica. A maioria dos que interagiram apostou que se tratava da formatura de jornalistas ou advogados. Até entendo que o Jornalismo esteja enfrentando uma crise de credibilidade, mas achava que os advogados estavam por cima, um deles até foi nomeado recentemente para a mais alta Corte do país. Só que fui contrariado por intervenções como essas, sobre a motivação de quem se livrou da moldura: “ Percebeu que tudo o que apreendeu na faculdade sobre a Constituição e o ordenamento jurídico foi jogada no lixo pelo STF”; “Acho que foi o advogado aquele que confundiu os príncipes, ao defender o golpista no Supremo”; “ou será alguém indignado com a sujeira que contaminou o judiciário corrompido?”; “Advogado decepcionado com o Judiciário, foi ganhar dinheiro no marketing digital”; “Foi discreto, tem togados que fazem em rede nacional”; “acho que aproveitou o momento para mostrar que os fins justificam os meios, depois de ter lido o Pequeno Principe de Maquiavel”. Pela amostra dá pra constatar que a área do Direito está mais contestada que a da Comunicação.

Também sobraram postagens para outras  profissões como a que acredita que a formatura era da “primeira turma de médicos EAD”, e outra apela para a flauta esportiva: “Deve ser gremista”. Não faltaram suspeitas de que se trata de “ex, com raiva, jogou no lixo”, ou de quem “está em crise existencial; queria ser cantor e acabou jornalista”,   ou, mesmo,  que “seria vingança de uma segunda ou terceira pessoa?”,  e ainda, o fato definitivo, de que “certamente alguém foi descartado”.

Nada disso, porém, parece responder a intrigante questão: afinal, o que levou a pessoa a se desfazer dessa forma do símbolo de um momento tão memorável? Não faço ideia, só sei que o gesto rendeu mais uma coluna e que até um descarte no lixo vira polêmica nas redes sociais.

(Texto inspirado na sugestão de Cláudia Guerreiro de Lemos)

 

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

A divertida indústria da morte

 * Publicado nesta data em coletiva.net

Um previdente amigo, mesmo com a saúde perfeita, já trata de sua última morada, no caso, a sepultura junto ao jazigo da família. O veterano fez contato com uma agente funerária, a fim de  se informar sobre condições para um enterro digno, mas sem muita pompa e sem deixar questões para os vivos resolverem. A moça era bem despachada, o que levou meu amigo questioná-la sobre como fora cooptada pelos serviços fúnebres que, convenhamos, não é emprego dos sonhos de ninguém.

- Eu era recepcionista de motel, aí me ofereceram um salário bem melhor e aqui estou.

Diante da resposta, o potencial cliente saiu-se com essa graça, um tanto questionável.

- Ah, claro, já estavas acostumada a atender gente deitada.

Soube depois que a moça já partiu para outros desafios profissionais ou “desencarnou” da funerária, em mais um gracejo do meu amigo, acrescentando que, pela especialização adquirida, ele acredita que virou massagista ou está dedicada a alguma outra atividade que exija a clientela em decúbito dorsal ou ventral. No popular, deitado.

Mas não era sobre isso que queria discorrer. Retomando o chamado fio da meada, usei a historinha para mostrar que já não se fazem mais pompas fúnebres como antigamente. Nada a ver com aquelas comilanças a que se assiste nos velórios  dos filmes americanos, mas aqui os pré-enterros eram verdadeiros eventos, varavam as noites na casa da família antes da disseminação das capelas mortuárias. O féretro era levado por um cortejo de veículos, carro fúnebre à frente, até o local do sepultamento. Havia comoção, gestos de solidariedade e orações na passagem da comitiva  funérea. As famílias mais abastadas pagavam por notas de falecimento nas rádios, lidas com voz grave e empostadas pelos locutores, além  de anúncios nos jornais. Autoridades e lideranças empresariais tinham direito à espaço nas capas.

Hoje as redes sociais se encarregam de divulgar os falecimentos e é de graça. Tudo ficou muito simples e rápido, como se os vivos quisessem despachar logo o ente querido, de preferência cremado, para não ter que visitar periodicamente o tumulo, nem pagar as taxas cemiteriais.

Entretanto, a indústria da morte está bem viva, cada vez mais próspera, indo além das necrópoles e das funerárias e conquistando espaço no mundo do entretenimento. Os streamings têm inúmeras ofertas de filmes e séries de funerais, a maioria do gênero comedia, o que traduz a tendência de tratar com leveza o sensível tema da morte.

Um lançamento recente é a série alemã A Penúltima Palavra, encontrável no Netflix. A proposta passa por contar histórias diferentes das hollywoodianas e, assim, atingir novos públicos. Falar de morte, do luto da perda e, é claro, da vida, é um caminho para isso, em uma comédia com toques de melancolia, drama e até romance, jamais de tragédia. A sinopse dá conta de que o mundo da personagem Karla Fazius se desfaz quando seu marido morre inesperadamente, após 25 anos de casamento. Para espanto da família ela reage e acaba encontrando uma nova energia em outra vocação: oradora de velórios. Foi quando descobri que na Alemanha até curso e diploma são necessários para desempenhar a função. Suponho até que haja um Sindicato de Oradores de Velório defendendo os interesses da categoria.

E mais não antecipo sobre a história até para  manter vivo, por assim dizer, o interesse nos  oito capítulos de A Penúltima Palavra. Só adianto que, em algumas encomendações, a oradora deriva para a supersinceridade, fazendo revelações sobre o defunto, que contrariam esse preceito do imortal Millôr Fernandes: “ A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcança limites insuspeitados e seu caráter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois da sua morte’.

Tudo indica que a série vai ser revivida em uma segunda ou mais temporadas.

 

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Minha jornada literária

*Publicado nesta data em coletiva.net

Na próxima quinta-feira, 17, concluo outra etapa da minha jornada literária de 2023, que relatei com mais detalhes em Livros à mancheia (https://coletiva.net/colunas/livros-a-mancheia-,430754.jhtml. em 02/07/2023. ). Agora é o lançamento do livro Entre um Gole e Outro – Conversas de Boteco, de uma confraria de 11 jornalistas que se reúne semanalmente, sempre as quintas-feiras, no Bar do Alexandre, também conhecido como Boteco do Alemão, ali na esquina da Gonçalves Dias com a Saldanha Marinho, no Menino Deus. O Alemão, no caso, era um cão caramelado que foi adotado pela clientela e até mereceu matéria na ZH quando partiu para o ceuzinho dos cães.

Pois agora o Alemão serviu de inspiração para o livro que está sendo lançado, com textos do time de jornalistas, a maioria aposentados, mas muito ativos na mesa do bar. São eles, em ordem alfabética para não dar ciumeiras: Alexandre Bach, Carlos Wagner, Elton Werb, Flávio Dutra, Horst Eduardo Knak, Marcelo Villas-Bôas, Márcio Pinheiro, Marco Poli, Mario de Santi, Luiz Reni Marques e Ricardo Kadão Chaves. O prefácio é da caldável Mariana Bertolucci, que também assina a edição pela Ba. Consta,  que a presença dela foi um artifício dos confrades para negar que o grupo seja misógino. Negamos peremptoriamente. Tem mais: tem  fotos do  Kadão  e do André Feltes, e também retratos menos artísticos dos celulares do pessoal. O belo projeto gráfico é do Antônio Luzzatto e a revisão  da competente Cássia Zanon.

Sou o decano do grupo, mas da última leva de integrantes, por isso não me sinto autorizado a nada antecipar (quase usei spoiler!) sobre os conteúdos da obra.  Prefiro repicar o texto reliseiro do Márcio Pinheiro, o nosso Marcito: “Entre Um Gole e Outro (...) livro que reúne textos de onze sujeitos unidos pelo amor ao jornalismo, surgiu como surgem os bons vinhos. Foi elaborado com calma por onze sommeliers da palavra e contou ainda com períodos de maturação, de paciência e de apuro de um paladar refinado. Vale ressaltar que não é apenas a experiência jornalística que une estes onze amigos. Há também a sabedoria nascida nas ruas, o humor (inclusive o mau), a capacidade de rir de si mesmo e, principalmente, o interesse em conservar um artigo cada vez mais raro nesses dias em que a agressividade campeia: a conversa alegre e descompromissada”.

Agora me perguntem: foi barbada produzir um livro reunindo esse qualificado grupo de jornalistas? Respondo: não! E explico porque no posfácio da obra. Para conferir isso e muito mais só comparecendo na quinta-feira no Bar do Alexandre a partir das 6 da tarde e até o último gole.

A próxima etapa da minha jornada literária vai ser participar do lançamento  do livro “Eles deixaram as respostas, nós fizemos as perguntas”,  que reúne entrevistas póstumas de consagrados autores gaúchos. A Cláudia Coutinho, o Nilson Souza e o Luiz Adolfo Lino de Souza, que estão mais diretamente ligados à edição, garantem que o resultado final será bonitaço. O que me coube foi “entrevistar” Josué Guimarães. Deu trabalho, exigiu pesquisa, respeito ao legado dele, mas acho que ficou legal. A obra marca a presença da Associação Riograndense de Imprensa na Feira do Livro de Porto Alegre.

Por fim, precisei saltar uma etapa da jornada, deixando para o ano que vem meu quinto livro solo, que já tem originais prontos e título escolhido: “Kamadutra, A Garota do Supermercado e outras histórias bobas”. Espero que reine grande expectativa até o lançamento.